
Como compositor de músicas cristãs (católicas) que sou, acabo refletindo muito sobre esse ofício, que me foi dado sem que eu mesmo pedisse, surgiu de forma gradativa e inesperada, e hoje faz parte de grande parte dos meus pensamentos diários. Acabo sempre cantando alguma melodia, frases soltas, e escutando muita música também. Escutando e pensando.
Respeito os compositores que buscam a poesia. Eu até tento, mas meu discurso é mais direto. Admiro aqueles que conseguem criar textos belos, metáforas bem interessantes sobre as coisas da alma. Mas confesso que tenho paixão por composições mais ousadas, aquelas que são quase cênicas, que criam personagens, contam histórias. Que emocionam.
Pegando a Maria Rita como exemplo. Ela canta músicas poéticas, como “Caminho das águas”, que não vejo tanta graça… E canta coisas como “Muito Pouco” ou “Não vale a pena”, que rasgam a alma. Ultimamente tenho me voltado para esse segundo tipo.
Ao transportar-me para a música católica, percebo que essa ousadia toda não é tão bem recebida. Estranho isso, mas as pessoas se chocam. E isso creio que vem de um hábito dos compositores católicos, e de outras igrejas também. Contentam-se em falar simplesmente de suas experiências de vida, e do que está passando. Podem falar sobre o encontro com Deus, a alegria, e até da queda, mas com arrependimento e busca por melhora. Raramente ouço músicas que falam sobre a raiva que sente um homem de Deus as vezes, sobre a vontade de se afastar do amor de Deus. Ou mesmo que mostrem a realidade da hipocrisia dentro das comunidades. Enfim, que abram mesmo a ferida do coração para que os demais, que vivem isso, possam também se identificar.
Por que é assim? Existe uma resistência a esses temas, por medo de julgamento externo? O músico católico tem sempre que ser aquele que um dia, no passado, já pecou, mas hoje busca a conversão? Ele não passa por problemas, desertos, crises de identidade, raiva, medo? Ele não pode ser crítico? Tem que ser sempre bom, plácido e santo? Por quê? Medo de que os fiéis ouvintes pensem errado de nós? Medo de que nos tirem dos pedestais que muitas vezes nos colocam, e nos igualem à suas realidades?
Será que temos medo de, falando sobre coisas difíceis de lidar, não consigamos evangelizar? Será que nosso papel é somente o de pregar a palavra de Deus, e nada mais? E o de alertar? E o de refletir, como espelho, o sofrimento do outro? Ou a hipocrisia nossa mesmo, a fim de podermos abrir os olhos pra o que todo mundo vê, mas ninguém comenta? Falar de Deus, e do servo de Deus, vai muito além. Porque falar de ser cristão é falar da nossa vida, com tudo que tem direito.
Eu escrevi estes versos, uma vez: “Essa não é uma canção de louvor, nem um hino de glória ao Senhor. Não é uma canção de adoração, nem de amor. Mas é a canção que sai de mim, é o que eu ouso cantar. (…) Se fosse mais fácil, se fosse mais claro, ou mais bonito, se fosse mais óbvio ou tranquilo, talvez eu pudesse então acreditar…”. Devo sentir-me culpado ou envergonhado com esses versos? Sim, foram pensamentos meus, minha vida, mas poderiam ser fatos da vida de alguém que escuta a canção. Somos compositores, e como tais, podemos criar personagens. Há verdade na canção, porque o sentimento é real. Agora, se eu canto isso, a primeira coisa que escuto é: “nossa, como você mudou. Cadê as palavras bonitas?… Cadê o ’ser livre pra fazer a vontade de Deus’?”. Até interpretam como se eu tivesse perdido minha fé, um minha inspiração… Ela existe, sempre, estando eu perto ou longe de Deus. Porque simplesmente me exprime e reflete como ser humano.
Queria muito, por exemplo, fazer uma música sobre algum rapaz que é um total hipócrita na igreja. Desses que são líderes de grupo, que pregam lindas palavras, mas o fazem só pelo status, pela aparência. Que têm um namoro que todos acreditam ser “santo”, mas que não passa de fachada. E que chega em casa e nem reza, mas faz questão de criticar a todos dentro de sua comunidade. Seria eu muito ousado? Pagaria o preço?
Importante dizer que isso não é só papel do compositor, mas também uma grande ousadia do intérprete. É ele quem coloca sua cara a tapa, quem tem uma imagem, uma voz. “Soldados em ordem de batalha”, primeiro pelotão.. Esses semi-deuses idealizados pelo público que os acha tão santos e puros… Mal sabem eles que somos iguaizinhos, senão piores. Os intérpretes também não podem temer frente ao desafio de expressar realidade, achando que serão julgados por isso.
O que é pior? Ser julgado por cantar a realidade, a verdade crua da vida nossa? Ou ser tachado de hipócrita por cantar coisas que não vive, e às vezes nem acredita? A única saída seria realmente santo e cantar sobre a santidade? Vai ser um lindo modelo para o público, algo raro de existir. Mas que é tão utópico…
Sendo omissos na nossa ousadia, criamos o que existe hoje. Um conjunto pasteurizado de canções claramente inspiradas nos nossos irmãos evangélicos, que falam de louvor, adoração, e perdão, sempre com as mesmas palavras. Todos repetindo os mesmos versos, e emocionando. Claro que é eficaz, claro que evangeliza, claro que toca o coração. Não estou dizendo que são desnecessárias, acho muito válido. Mas não devem ser a única forma, e muito menos ser a forma “correta”. A arte fica onde?
Me irrita profundamente quem justifica uma música precariamente composta como sendo “inspiração”. Como artistas, devemos ter o compromisso com o que é belo. Como compositores, devemos somar o compromisso pelo domínio do nosso idioma, e da música. E usá-los de forma correta. Como compositores católicos, somamos ainda a inspiração, a graça de Deus. Tudo isso deve ser somado, misturado e manejado com beleza, para criar uma canção. Não basta dizer o que sente. Devemos cuidar sobre o “como dizer”.
Repito, gosto de músicas simples. Já fiz algumas. Mas sempre com compromisso com a forma e o conteúdo. Acho necessárias essas músicas pros fiéis. Mas por que não ir além? Evoluir, crescer? Tomar uma postura de artista, comprometido, corajoso, que defende sua arte? Eu pretendo me colocar assim.
Não tenho medo de falar sobre as coisas ruins da vida. Nem tenho medo de falar numa linguagem jovem, direta. E nem tenho medo de, como intérprete, assumir personagens. Já escrevi: “Nem vem me condenando por pensar assim. Você me diz: ‘Religião é um troço tão ruim…’ e vai jogando seus argumentos racionais… Em plena consciência eu tenho a fé (…)”. É uma música sobre a certeza de ser cristão, e não se intimidar frente às críticas de fora. É ousado, corajoso, e ao mesmo tempo verdadeiro para 100% dos cristãos. Pra que ter medo? É humana demais, direta demais? Raivosa demais? Não sei… Mas nós não somos às vezes também diretos, raivosos, ousados?
JESUS NÃO EXPULSOU OS VENDILHÕES DO TEMPLO??? Ele tinha raiva, sim. Mas tinha razão pra tudo aquilo, e não estava fora de si. Agiu com coragem, ousadia e certeza, como em tudo o que Ele fez em sua missão.
Concluindo, acho que podemos e devemos cantar o que vivemos. E podemos cantar também o que não vivemos, mas o que às vezes outras pessoas vivem. A música popular não tem obrigação de ser autobiográfica, e creio que a música religiosa também não. Sejamos corajosos a ponto de inovar, ousar, e defender uma maior dedicação e compromisso com a arte que praticamos. Dom dado por Deus, talento emprestado, que deve ser muito bem administrado, rendendo frutos e chegando ao mundo inteiro.