
Esses dias fui à Blockbuster para alugar uns filmes. Bem, não é mais Blockbuster, na verdade, mas sim Americanas Express + Blockbuster. Isso deixou o espaço para os DVDs muito apertado. Os filmes em catálogo são tão difíceis de serem localizados que os vendedores nem se dão mais ao trabalho.
Mas não é sobre isso que vim falar. Estou eu lá, frente às prateleiras de lançamentos, que tem os filmes dispostos por ordem alfabética nas paredes. Nas prateleiras inferiores concentram-se filmes infantis e comédias, e mais acima os grandes lançamentos. Quanto mais popular o filme, mais espaço ele ocupa com mais exemplares.
Mesmo assim, estão todos lá, um ao lado do outro. Você encontra Ultimato Bourne ao lado de O vigia (filme que nem foi lançado nos cinemas, eu acho). Encontra Árido Movie ao lado de Acampamento do Papai. Click juntinho com Cidade dos Homens. Vemos filmes que nem se destacaram no cinema, como Fast Food Nation, ganhar ótima visibilidade na prateleira, enquanto Pecados Íntimos, um dos melhores filmes do ano passado, figura lá embaixo, quase sem chamar atenção.
Nas salas de cinema existe uma divisão bem grande. Filmes estrangeiros, de arte, europeus, ou que não têm apelo comercial, vão para o Grupo Estação, para os cinemas apropriados. Filmes de grande bilheteria vão para os multiplex da vida, com dezenas de cópias. Fica fácil para a maioria do público escolher hoje “Eu sou a lenda”, que está em 45 salas no Rio, do que “Mulheres sexo verdades e mentiras”, que está em 5. Agora, nas prateleiras estarão no mesmo nível.
A arte do filme transforma-se em algo decisivo nas prateleiras. A capa do DVD é o que vai determinar, na maioria dos casos, qual filme vai pra casa. É curioso ver como as pessoas alugam. Fique você lá rondando uns minutos. Verá que as pessoas pegam qualquer título na mão. Não sabem quem dirigiu, se fez sucesso, se é um lixo ou se é um filme de arte. Não sabem nada. Pegam, gostam da sinopse, da capa, e levam pra casa.
Se eu fizesse cartazes de filmes, ou capas de DVDs, pensaria somente nas locadoras. Quantos de vocês lembram dos cartazes na rua ou no cinema? Agora, quantos vêem as capas na locadora?
Reparem outra coisa: os filmes de comédia sempre têm capas brancas. Os de drama sempre tem o rosto dos personagens enquadrado. Suspense e ação são escuras. Observei coisas curiosas numa locadora aqui perto de casa. Eles separam por temas, mas parece que separam pela capa. “O sol de cada manhã”, drama com Nicholas Cage que tem uma capa branca, estava na sessão de comédia. “Party Monster”, filme pesadão com o Macauley Culkin, sobre drogas e travestis, estava na sessão de comédia também, por ter uma capa com estrelas, e, claro, Macauley Culkin.
Creio que esta projeção democrática das capas de DVDs na locadora acaba beneficiando os filmes que tiveram pouco destaque no circuito. Beneficia também os filmes que foram direto pro vídeo. No bolão das capas, o sujeito leva Peixe Grande crente que é um infantil, Billy Elliott crente que é comédia romántica, enfim…
O que acham dessa democracia das prateleiras?